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Florianópolis, 16 de Junho de 2010

EXÍLIOS DA ALMA: O TEATRO DE JOYCE
Por: Dirce Waltrick do Amarante 

Os críticos costumam afirmar que para se entender a obra de Joyce é preciso entender a sua vida. Embora seja uma afirmação controversa, o fato é que dois temas que atormentaram Joyce em vida, retornam em sua obra: 1) a questão irlandesa: Joyce “lutava” pela independência política e cultural da Irlanda, sua terra natal, ao mesmo tempo em que acusava seu país de absoluto provincianismo e de ser subserviente à Inglaterra; 2) o medo de ter sido, ou de vir a ser traído, por sua mulher, Nora Barnacle.

O tema de sua única peça teatral, “Exilados”, é basicamente o de um homem, o escritor, Richard Rowan, atormentado por um possível caso amoroso entre sua mulher, Bertha, e seu melhor amigo, Robert Hand, um jornalista. À possível traição de sua mulher, Joyce relacionou o sentimento de haver sido traído por seu próprio país, o qual não lhe deu as condições culturais de que sentia necessidade, por isso o levou ao exílio.

A peça foi escrita depois de uma viagem de Joyce à Irlanda, quando soube, por um amigo, que sua mulher o traíra numerosas vezes. “Exilados”, ou “Exílios” (outro possível tradução para “Exiles”), não apresenta grandes arroubos estéticos, mas é um texto que busca capturar “almas atormentadas” e, por isso, poderá atormentar outras tantas.

Eis dois fragmentos da peça, na tradução de Alípio Correia de Franca Neto (JOYCE, James. “Exilados”. São Paulo: Iluminuras, 2003). A propósito, neste ano, em que o Bloomsday de Florianópolis  homenageia especialmente o homem da imprensa, Robert, o jornalista, ganha destaque nesta seleção de fragmentos da peça teatral de Joyce:


“Robert (acendendo-o) – Esses charutos me europeízam. Se a Irlanda quer-se tornar uma nova Irlanda ela deve primeiro se tornar européia. E você está aqui para isso, Richard. Um dia nós vamos ter que escolher entre a Inglaterra e a Europa. Sou descendente de estrangeiros morenos. Por isso é que gosto de estar aqui. Posso estar sendo infantil, mas em que outro lugar de Dublin eu posso arranjar um charuto de bandido como este ou uma xícara de café preto? O homem que bebe café preto vai conquistar a Irlanda. E agora vou tomar meia dose daquele uísque, Richard, para lhe mostrar que não há nenhum rancor” (p.95).


“Robert (com animação cada vez ma maior) – Uma batalha das nossas duas almas, deferentes do jeito que são, contra tudo o que é falso nelas e no mundo. Uma batalha da sua alma contra o fantasma da fidelidade, da minha contra o fantasma da amizade. A vida toda é uma conquista, a vitória da paixão humana sobre os mandamentos da covardia. Quer isso, Richard? Tem coragem? Mesmo que reduza a pó a nossa amizade, mesmo que acabe para sempre com a última ilusão na sua vida? Havia uma eternidade antes do nosso nascimento: virá uma outra depois que nós tivermos morrido. O momento de cegueira e paixão – paixão, livre, desavergonhada, irresistível – é a única saída pela qual podemos escapar da miséria do que os escravos chamam de vida. Não é essa a linguagem da juventude? Linguagem que eu ouvi tantas vezes de você aqui mesmo onde estamos sentados agora? Você mudou?” (p. 127).

 

 

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