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Florianópolis, 25 de Julho de 2010 JOÃO GILBERTO NOLL: UM COMEÇO PRECIOSO Por: Dirce Waltrick do Amarante* No início do ano, a editora Scipione lançou no mercado dois novos títulos, na sua coleção infanto-juvenil: “Sou eu!” e “O nervo da noit”e, ambos do escritor gaúcho João Gilberto Noll. Embora publicados para o público jovem, os contos de Noll não diferem esteticamente de outros de sua autoria. Neles, o leitor encontrará a mesma narrativa lenta e circular, os mesmos personagens sem identidade, sempre mal definidos, de outros textos do escritor, como, por exemplo, “Hotel Atlântico”, “Harmada” e “Canoas e marolas”, todos para o público adulto, se levarmos em conta, para classificar textos literários, uma hipotética relação entre qualidade (e/ou intenção) artística e faixa etária dos leitores. Num primeiro momento, pode-se pensar que esses dois textos foram levados para a prateleira “infanto-juvenil” pela brevidade de seu fôlego, cada conto não ultrapassa 43 páginas, ou, ainda, pela temática de ambos. Nos dois contos, Noll narra o fim da infância e o difícil começo da puberdade e da vida adulta: “Por isso agora ele estava ali, na frente do espelho. Passava o aparelho de barbear do pai pelos dois lados da face. E se sentia ainda incapaz para o novo rosto que lhe custaria a brotar.” (“Sou eu!”) Apesar de os dois contos terem como tema o fim infância, o enredo em si possui um papel secundário nas narrativas de Noll, já que o escritor não se preocupa em contar uma história com começo, meio e fim, ou em oferecer uma trama bem traçada. Ao contrário, seus livros entram no universo onírico, onde os fatos se repetem e se contradizem. Em “O nervo da noite”, por exemplo, a história, ao chegar ao meio da narrativa, recomeça e depois termina de forma abrupta, como se o personagem tivesse sido acordado de um pesadelo, “onde tudo parecia estar aquém de certos folguedos cultivados na infância”, conforme relata o garoto narrador do conto. Assim como nos sonhos kafkianos, nos contos de Noll a imagem onírica exige uma linguagem poética, e é essa linguagem a protagonista de seus textos, os quais são, eles mesmos, um sonho que, como diz Kafka noutro contexto, “tira o sono”, não só de escritor, mas também do leitor. A escritura portuguesa Maria Gabriela Llansol afirma, aliás, que “rigorosamente o sonho é diurno”, referindo-se talvez aos sonhos narrados que proliferam na literatura e que absorvemos de olhos abertos. Para o público jovem, esse tipo de narrativa não deveria ser nenhuma novidade, já que para ele, no século XIX, foram redigidas obras como “Alice no País das Maravilhas” e “Através do Espelho”, duas aventuras oníricas clássicas de Lewis Carroll, até hoje muito lidas. Contudo, ao introduzir o jovem leitor numa literatura mais experimental, como a de João Gilberto Noll, a editora Scipione não deixa de remar contra a maré, ousando oferecer algo mais ao leitor comodista. Não sem razão, Michel Laub, que assina o posfácio de “Sou eu!”, lembra que “existe a crença de que a literatura para o público jovem, ou mesmo para adultos, deve ser ‘fácil’. Ou seja, as histórias devem ser diretas, com início, meio e fim definidos, e os personagens devem aparecer claramente em suas virtudes e fraquezas.” O fato é que, embora difícil, “o começo de um livro é precioso” e, quando esse começo se prolonga, opina Llansol, “um livro seguinte se inicia. Basta que a decisão da intimidade se pronuncie. Vou chamar-lhe fio _____ linha, confiança, crédito, tecido.” A iniciação à literatura precisa, certamente, de confiança e crédito no vazio cinza de suas páginas e nos areais movediços de sua escritura. Mas a literatura não conhece faixa etária, já que todo bom livro tem dentro dele “tempestades” e, segundo Walter Benjamin, referindo-se a seus livros de criança, abrir um deles é ser levado “bem ao centro de uma delas”: “Cores borbulhantes e fugidias, mas que tendiam sempre para um tom violáceo que parecia provir das entranhas de um animal abatido. Indizíveis e graves, como esse violeta proscrito, eram os títulos, cada qual me soando mais estranho e mais familiar que o precedente. Antes, porém, que eu pudesse me garantir na posse de qualquer um deles, acordei sem nem mesmo em sonho ter tocado aqueles velhos livros infantis.” A literatura para todas as idades impõe sempre uma resistência ao leitor, resistência essa própria da sua linguagem, que espera ser “decifrada”, mesmo sabendo que nela existe uma pluralidade e um labirinto de conceitos, logo, várias “decifrações” possíveis ao alcance do leitor, o que parece tornar mais fácil a leitura. Numa de suas reflexões sobre leitura, Llansol afirma, a propósito, que a literatura “queria abrir a porta mas não conseguia abri-la folgadamente. Opunha resistência às suas mãos que deslizavam.” Talvez repouse nesse jogo movediço, e não necessariamente na sua compreensão, o maior prazer que literatura proporciona a seus leitores. * Autora de Para ler ‘Finnegans wake’ de James Joyce (Iluminuras, 2009) e de Peças Sintéticas (Katarina Kartonera, 2009)
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