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Florianópolis, 24 de Janeiro de 2010

1/3 DE ÓLEO
Por: Vera Albers

  

Há tempo deixei de lecionar. Por um acidente inesperado, mais do que propriamente  por um motivo: em tempos idos uma ex-professora de Faculdade resolvera segredar ao Diretor que eu era “ uma perigosa líder estudantil”. Senti-me constrangida diante do Sylvio Silveira que tão prontamente me acolhera, e me demiti.

Decidi voltar-me para minha outra habilidade, mais segura: cozinhar.

Na verdade, trabalhei como gestora ,  assim  se diz agora.

Não lidava  com os clientes, só com o staff, e os proprietários, claro.

Deve ter sido por isso que, depois de muitos anos, comecei a sentir falta do contato direto com o público, mas um público a quem pudesse transmitir algo e que, naturalmente, estivesse interessado. Ora, volte para o ensino – disse-me Yoko, a maître. O que melhor do que os alunos?

Lembrei-me, então, que numa das paralelas à  rua de minha antiga casa havia um colégio particular que me chamara a atenção por ser uma construção térrea, em tijolos Bahia.

Uma vez até andara por lá durante uma festa junina e assim, cheio de bandeirolas e

de fumaça do churrasco de  que os pais cuidavam  deu-me uma sensação de alegria espacial. Certos espaços me atraem  e foi por isso que resolvi entrar, daquela vez, e voltar agora. Que tal se estivessem precisando de alguém para lecionar à noite?

Que tal tentar o destino?

Estavam precisando sim, no curso de inglês para a primeira série.

Entreguei o currículo que foi aceito. Acertei com a seção de RH, assim se diz agora, e duas vezes por semana, durante o ano inteiro, alfabetizei os aluninhos e mais: inventamos atividades de que gostaram muito. No segundo semestre já sabiam escrever suas composiçõezinhas  diante dos desenhos colados em cartolina que cada um deles ia trazendo: Mithamo, Monster,  ET, o gato Sphynx, os Grooatos. Logo me atualizei. No dia do professor recebi um saci manco  do Manuel, e os outros seguiram o exemplo. Será que posso aceitar os presentes? Ia perguntar ao Mariva, o orientador pedagógico, se ele não me olhasse com aqueles olhos perscrutadores, querendo entrar no meu íntimo, querendo entrar no meu âmago, como outrora, quando eu era novinha, o Aldo...

O ano terminou com sucesso, eu achei.

Quando fui à secretaria para comunicar meu próximo horário, dona Estela me disse que

o Dr. Aguiar queria me ver.

Terão sido os presentes? Pensei para comigo enquanto subia a escadaria, de certa forma, insegura. O que será?

- A senhora está pecando por excesso , foi me dizendo o Diretor.O aluno abre a boca, a senhora põe para fora. E ainda teria dito  “ terei o prazer de reprovar não sei quantos”.

Logo visualizei o Marcelo, o gordinho sonolento a quem, de fato, sugeri que desse uma voltinha, mas foi só para acordar, e quanto ao resto...

- A avó dele esteve aqui para se queixar, sabe, a senhora Barboza.

Barboza? É o destino que me atenta.  Que coincidência!

Será coincidência mesmo? Mas passou tanto tempo...

 

-Alô, Vera, é a Yoko. Sabe aquela receita para hoje à noite? Esqueci de lhe dizer. Vai um terço de óleo, junto com as abobrinhas.

 

 

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