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Florianópolis, 14 de Dezembro de 2009

ALICE SAI DA TOCA ANTES DE TIM BURTON
Por: Antonio Gonçalves Filho*

Filme baseado no livro de Lewis Carroll só estreia em abril, mas nova tradução já está nas lojas com ilustrações de Luiz Zerbini

Para quem não aguenta esperar até o dia 16 de abril de 2010, quando o filme dirigido por Tim Burton estreia nos cinemas brasileiros, a nova edição do clássico Alice no País da Maravilhas, lançada esta semana pela Cosac Naify, pode satisfazer algumas fantasias de leitores adultos sem tomar liberdades demais com o reverendo Lewis Carroll (1832-1898), que gostava mesmo é de crianças - em mais de um sentido. Isso porque seu tradutor, o historiador Nicolau Sevcenko, evitando algumas armadilhas que o alegórico livro coloca no caminho de seus intérpretes, optou por uma leitura direta, sem especulações filosóficas, do texto original. Auxiliado na tarefa pelo artista plástico Luiz Zerbini, Sevcenko deixou a interpretação dessas alegorias para os leitores - ou a constatação que esses devem se curvar hedonisticamente à falta de senso de uma fantasia ficcional muito além da era - e da moral - vitoriana.

Zerbini fez ilustrações desafiadoras, ao trabalhar com o aparato do sistema de referências de Carroll, todo ele ligado à lógica filosófica e à questão do nonsense. Neófitos nesse universo devem entender que Alice é uma menina que um dia, entediada da vida careta na Inglaterra vitoriana, resolve seguir um coelho branco, entrar em sua toca e descobrir um mundo novo, cheio de possibilidades e de criaturas antropomórficas mais esquisitas que Marilyn Manson. Ao entrar no buraco, Alice topa com um chapeleiro maluco, uma rainha voluntariosa que não admite ser contestada, uma duquesa feia e abilolada, sempre disposta a tirar uma lição moral de tudo, e até um risonho gato inglês, que escarnece da garota.

Lewis Carroll já tirou o sono de psicanalistas, físicos, filósofos, matemáticos e linguistas, todos empenhados em decifrar os enigmas propostos nessa história infantil - infantil? - que um dia inventou para contar à amiguinha Alice Pleasance Liddell (1852-1934). Ninfeta eternizada numa pose um tanto erótica de mendiga suplicante pela câmera fotográfica de Carroll, Alice tinha 13 anos quando o escritor lançou o livro com seu nome. O texto serviu de pretexto para insinuações de pedofilia, mas nunca ficou provado que Carroll avançou o sinal. De qualquer modo, seu livro armou mesmo uma rebelião contra as convenções, como já observou o estudioso William Empson.

Luiz Zerbini, ao usar o padrão gráfico das cartas de baralho, misturando-as com imagens reais e recortes das ilustrações originais, reforça a desconfiança de que a fantasia literária de Carroll estaria intimamente ligada a uma linguagem esquizofrênica. O sonho de Alice é destruído pela realidade no fim do livro, nunca é demais lembrar. Antes, porém, a pequena curiosa enfrenta um rito de passagem que lhe permitirá, no futuro, ter boas lembranças desse mundo onírico, surrealista, que descobriu na toca do coelho, um mundo em que cartas de baralho ocupam lugar de soldados, em que uma rainha tirânica manda cortar as cabeças de quem não gosta e onde tudo é um jogo, mantido no precário equilíbrio de Humpty Dumpty, o homem-ovo sentado num muro estreito e submetido à mais severa lei do isomorfismo, à lógica de que todo nome deve ter um significado.

O jogo pode significar, portanto, um julgamento. Ao mandar que cortem a cabeça de Alice, a Rainha de Copas, vermelha de raiva, atesta que nenhum de seus soldados-cartas se mexe. Alice, desafiadora, olhar para a caprichosa soberana e diz: "Quem é que liga para você"? Em seguida, dirigindo-se aos soldados, completa: "Vocês não passam de cartas de baralho". Não era o que pensava filósofo Gilles Deleuze, que via na aventura de Alice uma tentativa de buscar no nonsense um sentido que falta ao mundo, uma felicidade que não se encontra no discurso lógico, mas no paradoxo. Talvez seja uma boa lição para os físicos do novo milênio. Muitos já disseram que Carroll, além de tudo, antecipou Einstein em sua teorias sobre tempo e espaço. Pode ser mesmo que a Rainha de Alice corra mesmo é para lugar nenhum.
* Escritor e crítico de  "O Estado de São Paulo" 
 
Serviço

Alice no País das Maravilhas - De Lewis Carroll. Tradução de Nicolau Sevcenko. 168 páginas, R$ 45

 

 

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