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Florianópolis, 01 de Novembro de 2009

SEMPRE, PARA SEMPRE, LÁ E CÁ - POEMAS DE VELIMIR KHLÉBNIKOV
Por: Aurora Bernardini

Traduzidos do russo


1
*As pessoas mudaram seu rosto de modo surpreendente
Quando eu vim à luz do dia.
Algumas pediram que me fosse,
Outras disseram: irradia.

2
*Quando morrem os cavalos - - respiram,
Quando morrem as ervas - - secam,
Quando morrem os sóis - - se apagam,
Quando morrem os homens - - cantam canções.

3
*Os deuses, quando eles amam,
Condensam na medida o trepidar da esfera
Como Púchkin a chama de amor pela cozinheira de
Volkónski.

4
*Noite, repleta de constelações,
De que destino, de que novas
Brilhas tu, ampla, ó livro
De liberdade ou jugo,
Que sorte deves ler
No vasto céu da meia noite?

5
*Neste dia de ursos celestes
Correndo por cílios serenos,
Eu vejo além do azul da água,
Na taça dos olhos, a ordem despertar.
Na colher de prata dos olhos tensos
O mar me é oferecido e nele, o albatroz;
E, para além do mar ruidoso, vejo a Rússia passarinha
Por entre incertos cílios passar voando...

6
*A natureza não é o que você pensa:
Não é esboço ou escultura, nem rosto sem alma,
Há espírito nela, há liberdade,
Há amor e linguagem.

7
*Fazenda à noite, gengiscana!
Farfalhai, bétulas azuis.
Aurora noturna, zaratustra!
E tu, céu azul, mozarteia!...

8
*Estava fechada a pólvora no corno de uma vaca,
Na cabeça dele, uma ovelha.
E a palavra curta e brusca
Soou nos gestos do narrador.
Como centeio humano
Juntou, nas medas, uma faca de fora.
Quem muito viu, deduziu.
As almas deles, como ferro,
O mar cantavam, como onda.
Atrás do chapéu branco de velocino
Escondia-se o olhar do cantador de ovelhas.

9
*E o “ouço” rouco de Rázin
Surgirá do fundo das colinas,
Bandeira rubra a erguer-se no telhado
E a conduzir o exército das mentes.


10
*Depois ajustou os forcados, tornou-se vermelha.
Esteve uma vez na reunião da gloriosa “Vontade do
Povo” - - que perigo! - -
Todos os membros dela, depois,
Cada um deles,
Balançaram pendidos
Com o pescoço dentro dos arreios do czar.
Debatiam-se até a morte, lutavam
Os melhores homens, contra a servidão.
Depois entrou com raízes na família.
Ocupou-se dos filhos, ensinou-os,
Mudou-se para o sul.
As crianças cresceram, estranhas, selvagens,
Sem força de vontade, como jovens
Livres para tudo,
Sem nada querer,
Artistas, escritores,
Inventores.

11
*Eu dou um novo sentido à “morte”,
Ao comandar as nuvens, ao atirar na terra o trovão branco...
Leis da natureza, arreganhai vossos bravos dentes !
Ou então trazei pedras para meus recantos.
Enche de auroras o Eu, o céu de si próprio,
Para saber como da mão treme e se arranca o raio.”

12
*Já há milagres; lá vagueia o espírito da floresta,
E a russalka senta-se nos galhos;
Já, em atalhos nunca vistos,
Há rastros de animais desconhecidos;
Tem uma isbá em pés de galinha
Sem portas ou janelas:
Já o bosque e o vale são cheios de visões...”

13
*“Rogo-te, bravo e crespo Khmel,
Vinga-te dele rindo, ao zombador a zombaria.”

14
* Rindo, rosnando e gargalhando
A corja se revolta contra o rico.
À sombra do invisível Pugatchóv
 Ateou a rebelião dos escravos.”

15
* O alegrinho, o corrupto, o carola
Debocha do regime férreo
E quem acertava o passo com a bandeira
De repente debanda, quebrando a fileira.

16
*Via-se, assim quisera o céu
Servir ao destino secreto,
Colocando o grito de amor e de fome
Dentro de tudo o que é vivo.

17
*Uma estranha quebra de mundos artísticos
Foi precursora da liberdade, da libertação das
                                                           correntes.
Assim você caminhava, arte... - -

18
*A liberdade vem desnuda,
Flores atirando ao  coração,
E nós, acertando o passo com ela,
Tratamos ao céu por tu.


19
 *Eu saí jovem, só
Na noite escura,
Coberto até o chão,
De cabelos bastos.
A noite estava em torno
E eu me sentia sozinho.
Queria ter amigos,
Queria ter a mim.
Eu incendiei os cabelos,
Atirei-me em trapos encaracolados
E ateei fogo em tudo à minha volta.
Fogo nos campos, fogo nas plantas,
E fiquei mais alegre.
Estava em chamas o chão de Khlébnikov.
E cheio de gozo eu ardia na escuridão.
Agora vou por aí,
Incendiando tudo com o cabelo...
E em lugar do Eu
Ficou o Nós...”


20
*E quando a esfera terrestre, calcinada
Me perguntar inclemente quem sou eu
Nós refaremos ‘O canto do exercito de Ígor’
Ou qualquer outro, parecido com ele, - -

21
*Ontem, na Torre, comemos em paz:
A família, Kuzmin, um proprietário-diletante...
E um dos jovens passarinhos de Mussaguet
Ideólogo e filólogo, que chegou sem rumo
Com um curioso astral de Moscou,  - -
Tremendo de febre mística
(Eu o amo e me parece - - ele será
De ajuda à Renascença Eslava:
Wenn sich der Most auch ganz absurd gebärdet
Es gibt zuletzt doch noch’ nen Wein - - por Goethe).

22
*Por natureza mimado e desgrenhado,
 É matemático e poeta,
Desordeiro pensativo e grave,
Cirurgião, jurista, fisiologista,
Ideólogo e filólogo,
Em poucas palavras - - um estudante jurado...


23
*Quando eu quero, deixo rastro.
O caminho é minha tocha - - minha luz interna.
Ela ilumina tudo à minha frente,
E o que está atrás, é entregue às trevas.

 

(sai)

(E seu antigo professor diz-lhe o seguinte:)

“Vai, esquisitão, trombetear teu gênio!
O que seria da importância que te dás
Se soubesses: não há pensar, por menor que seja,
Que já não tenha sido pensado de antemão!
Os rios  que transbordam voltam a seu leito.
Foi decidido que voltarás a ti
No final, por mais que fermente o mosto,
O resultado será o vinho”


POEMAS DO CAPÍTULO II

24

*Vocês, livros, são escritos
Para o sábio poder recriar um dia
Misturando na mão as terras santas
Que uma vez eu escrevi?”
E lá vai ele: a carcassa de ferro
Corta com o peito o peito do mar
E duas chaminés de tamanhos desiguais
Soltam fumaça. Eu sinto saudades.
Manhãs marítimas se movem,
Mas ó mundo dos antepassados, não aplaude,
Pois até agora não sabemos quem somos:
O santo Eu, mão ou coisa?”

25

*Ouça! Quando muitos morreram
Nas profundezas da grande água,
E na pátria dos campos de centeio
Não havia a quem escrever cartas,
Eu fiz uma promessa,
Eu rabisquei na casca azul
Da bétula dos pântanos
Os nomes dos barcos
Tirados dos anais,
Na cortiça azulada
Eu tracei corpos, ondas, chaminés, - -
Mago, eu sou, astucioso, - -
E conduzi à luta o mar longínquo
E a bétula nativa e o pântano.
Quem é mais forte, a ingênua bétula
Ou a fúria do mar de ferro, fervendo de projéteis?
Eu prometi entender tudo,
Para tudo perdoar a todos. 
26
*Os piolhos estúpidos me imploravam,
Cada manhã subiam pela roupa,
Cada manhã eu os executava,
Escutando o estalo,
Mas eles surgiam de novo como maré calma.
Meu cérebro branco divino
Eu dei para você, ó Rússia,
Tanto eu, tanto Khlébnikov.
Enfiei na mente do povo uma estaca e eixos,
E fiz uma cabana de estacas
 - - “Nós futuristas”.
Isso tudo eu fiz como mendigo,
Como ladrão, amaldiçoado por todos em todo lugar.

27
* O frio das superfícies austeras,
As curvas tenras dos números - -
Para que os vivos se autogovernem
Mais rebeldes, sem autoridade - - 

28
* Bom carpinteiro das horas,
Eu desmontei o relógio da humanidade,
Acertei os ponteiros,
Refiz a lista das datas,
De novo contei todos os tempos.
Enfiei a porca com o buril,
O curso dos ponteiros do destino do céu férreo
Vedei com vidro:
Batem silenciosos como dantes.
Prendi ao meu pulso com a pulseira
O relógio da humanidade.
As canções das engrenagens e das rodas
Cantam numa língua de ferro
Orgulhoso eu vou, pelo conserto dos cérebros.
Vão e andam, como dantes.
Blocos de inteligência e fardos de conceito
E todo um comboio de pensamentos mortos
Como deuses à frente e animais atrás,
Estrume dos campos divinos,
Coloquem como espigas nas alegres medas
E dêem-lhes a andatura, a alegria e as corridas.
Estes pela testa parecem pensadores,
Outros parecem livros de canções sagradas.
Operários, habitantes da fábrica do pensamento!
Trabalhem, carreguem, mexam!
Dêem espaço, corrida de força guerreira
E fúria, e movimento,
Mandem para o sono, as desgraças, a batalha...
29

*E se a criança beber o leite da jovem,
Da babá ou da vaca parida,
É como se ela bebesse o branco cadáver do sol,
E se no tosão das cabras mortas
E na suntuosa cova do castor
Você passear, ou no refinado tecido das borboletas
Não conhece  a morte e a vaidade - -
Você passeia na casca dos restos mortais do sol.
Carro funerário do cadáver do grande sol.
Morreu o sol - - nasceram as ervas,
Morreram as ervas - - nasceram as cabras,
Morreram as cabras - - cresceram as  capas,
E as doces cerejas. Depois de amanhã farei 33 anos:
É doce porque eu também sou cadáver do sol,
E os fósforos - - são o cadáver do sol das madeiras - -
                                             enterro de terceira.”
Ó vento das mortes ensolaradas, tangidas pela sorte...


30
*Somente nós, ao completar vossos três anos de guerra
Numa única volta da terrível tuba,
Cantamos e gritamos, cantamos e gritamos,
Embriagados pela beleza daquela verdade,
Que o Governo do Globo Terrestre
Já existe.
Somos nós.
...................................................
Que descarados - - dirão alguns.
Não,  santos, - - responderão outros.
Mas nós sorrimos, como deuses
E apontamos para o Sol.
Arrastam-nO amarrado numa corda de cachorro,
Prenderam-nO nas palavras:
Igualdade, fraternidade, liberdade.
Julgaram-nO com o seu juízo de lavadores de pratos
Porque, nas vésperas
De uma primavera muito ardente
Ele colocou dentro de nós esses belos pensares.
Essas palavras e deu esses olhares irados.
O culpado é Ele.
Pois nós cumprimos o sussurro do Sol,
Quando nos escondemos em vocês
Quando representamos  Suas ordens,
Seus severos mandamentos.


31
31
*Ano 1917. Os czares abdicaram. A égua da liberdade!
O galope selvagem tudo atravessa.
Uma praça com a águia quebrada.
O brilho da faca nos
Olhos negros dela.
Não se consegue segurá-la
Com o poder absoluto.
Galopa, levantando a poeira com os cascos.
Galopa, a orgulhosa profeta.
Bate contra as pedras e se arrasta
A velha realidade morta.
Galopa para onde e para quem?
Nunca poderão alcançá-la!
Brilha em seus olhos o fogo e o obscuro - -
Isso para que
E porque
Passaram dois dias elevados a dois dozeavos
Desde o dia da Presnia Vermelha.
Aqui havia dois tempos de Deus.
E a queda dos czares com o cabresto na mão
E a caça atrás deles “ui, ui, ui” ao longe
Urrava ao longe com o berrante.”


32
*Vocês viram,
Como um verso de canção,
Um conjunto de palavras, a bota da imprensa,
A alma da concepção,
O comboio vivo do trem das palavras,
Um selvagem gritando “ui, ui, ui”,
Monta o cavalo dos acontecimentos
E não precisa de estribo.
.......................................................
Saibam as pegadas dos lagartos do futuro
Desenterrar nas pedreiras das palavras
E pelos ossos construir o inteiro esqueleto.
Nós do passado somos apenas hóspedes,
Nossa casa é o futuro.”

33
*Sempre, para sempre, lá e cá,
Para todos tudo, sempre e em todo sítio!  - -
Voará até as estrelas nosso grito.
34
*E os castelos da barganha universal
Onde brilham os grilhões da pobreza,
Com cara de escárnio e de gozo
Transformarás o uma vez em cinza.
35
*Não desenhe com giz, mas com amor,
Esboce aquilo que vai ser.
E o destino que adejou na cabeceira
Vergará a sábia espiga do centeio.”

36
* Aqui está Razin, o rebelde,
Que voando até o céu de Niévski,
Leva consigo o traço
E o espaço de Lobatchévski.

37
* Hoje está sendo roído o milenário “Antes”.
Hoje está sendo revisto o fundamento dos mundos.
Hoje
Até o ultimo botão de roupa
Vamos refazendo a vida novamente.

38

*Voa, constelação humana,
Sempre mais, mais longe para o espaço,
E verte as falas da terra
Na única fala dos mortais.
Onde com um enxame de estrelas metralhando o céu,
Qual peito do último Romanov,
O vagabundo das idéias e amigo dos trocistas
Forjará de novo a constelação.

39
* Os arranha-céus se afogam na fumaça
Da explosão divina,
E é amarrado com anéis cinzentos
O palácio da venda e da ganância.

40

*Quem se cansou das antigas discussões
E tem sua cela  nas alturas,
Leve na mão a pólvora ruidosa,
 E conclame o castelo a voar pelos ares.


41
*Ó tu, infinito pelo espaço,
Vivo no movimento da matéria,
Pelo fluxo do tempo, eterno,
Sem rosto, nas três faces da divindade!

  42
*Sofrendo pelo fundo ferimento,
Tirando a tranca do clarão,
Pega pelo bigode a constelação de Aquário,
Bate no ombro da constelação dos Cães.

43
*Estão indo em procissão os criadores
Trocando o “d” pelo “t”,
Cidadãos do mundo da harmonia
Com o Mundo do trabalho hasteado.

44
* Aqueles jovens juraram
Destruir as linguagens - -
Vocês já adivinharam seus nomes - -,
Vão coroados para a coroação.

45
* E numa pele de ovelha ao ombro atravessada
Passa você, violento e valente,
Para acender a fogueira do começo
Das mudanças da vida nessa Terra.

46
 *E ele levanta vôo, o lindo canto
Da vela do trabalho terrestre,
Tu voarás, imortal e moreno,
Jovem santo, para lá.
47
* Eu vejo a liberdade dos cavalos
E a igualdade de direito das vacas,
Pela realidade dos sonhos vão se unir os anos,
Dos olhos do homem caiu a tranca. 

48
* A ti mesmo criando,
De ti mesmo brilhando,
Tu és a luz de onde a luz é proveniente.
Tudo criando numa única expressão,
te expandindo numa nova criação,
Tu eras, tu és, tu serás eternamente!

49
Vê o número no lugar da fé.
E agüenta o mister de timoneiro - -
50
Por gostar da via do peregrino
Ele pegou o bastão da série numeral
E, extraindo a raiz do nada de si mesmo,
Viu nela nitidamente uma russalka.

FIM

 


Vielimir Khlébnikov
(1885-1922)

Por muitos anos, o nome do poeta russo, um dos mais radicais do século XX, ficou excluído de enciclopédias e histórias da literatura. Atualmente, porém, está generalizado o reconhecimento do seu papel decisivo como renovador da poesia russa moderna, ao lado de Maiakóvski. Tal como os demais poetas cubo-futuristas, teve posição favorável à Revolução de Outubro. Em 1921, participou da campanha do Exército Vermelho na Pérsia. Sua morte, quando ele já havia se transferido para Moscou, passou quase despercebida, o que provocou um artigo indignado de Maiakovski.

 

 

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