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Florianópolis, 20 de Setembro de 2009

ESQUECENDO WIMBLEDON
Por: Rafael Vogt Maia Rosa*

Personagens
Lana, 20 anos
Janos, 30 anos
Olavo, 25 anos
Janice, mãe de Lana


Ambiente externo. Terraço amplo e jardim. Ao fundo, som quase imperceptível de uma bomba de piscina.

JANOS: Não tenho certeza de como acabei entrando na sua casa. Vim para ajudar meu pai que é jardineiro aqui na Vila Olímpica. Não conheço bem esse lugar, acabei me perdendo...

LANA: Sua camisa está suja de sangue.

JANOS: Eu sei. Sofri um acidente.

LANA: Se machucou?

Som de veículo se aproximando e estacionando.

JANOS: Escuta..., é difícil explicar isso agora, mas eu segui com o carro até onde deu. Se me encontrarem aqui, é capaz de quererem...

LANA: (Emendando) Vai pela piscina, até os fundos. Pode ficar no vestiário. Lá você também encontra uma roupa para trocar.

JANOS: Tem certeza?

LANA: Vai logo!

Janos se distancia apressadamente. Olavo se aproxima.

OLAVO: Achei que estivesse correndo a essa hora. Estava te procurando lá em baixo, perto da represa.

LANA: Tive um mau jeito na perna.

OLAVO: Sabe de quem é esse carro velho perto da entrada?

LANA: Não tenho idéia.

OLAVO: Não é melhor avisar os seguranças? Parece que houve um atropelamento perto do estádio.

LANA: Olavo, você me desculpe, mas não estou me sentindo bem assim.

OLAVO: Assim como?

LANA: Com esse moletom velho. Uso isso para dormir.

OLAVO: Você fica bem com qualquer roupa.

LANA: Bobagem...

Silêncio.

OLAVO: Sua mãe já acordou?

LANA: Minha mãe? Ainda não.

OLAVO: Eu sei que é cedo, mas precisava contar que meu pai insistiu com o pessoal da incorporadora e eles disseram que podem, sim, fazer uma oferta para casa de vocês e transformá-la em um centro administrativo ou coisa assim.

LANA: É uma ótima notícia.

Silêncio.

OLAVO: Não ficou feliz?

LANA: Sim, muito. Nós agradecemos sinceramente.

OLAVO: Sabe que eu sou capaz de fazer qualquer coisa para ajudar. (Pausa) Só não entendo porque é tão... reticente.

LANA: Não é isso. Acabei de acordar. (Pausa) Não estou muito bem. Preciso mesmo tomar um banho, me cuidar um pouco.

OLAVO: Eu entendo. (Pausa) Então... te vejo à noite, no encontro de boas-vindas na sede nova?

LANA: Acho que sim.

OLAVO: Posso te buscar, se quiser.

LANA: Sabe como é minha mãe.

OLAVO: Sei. Não se esqueça dar a notícia pra ela.

LANA: Claro.

OLAVO: Até mais tarde.

LANA: Até.

Olavo se distancia. Silêncio.

JANICE: (Voz vinda de dentro da casa) Lana, com quem estava falando?! (Som de carro acelerando e saindo.) Aconteceu alguma coisa?

LANA: Um cachorro desses que os moradores antigos deixaram foi atropelado lá perto do estádio.

JANICE: O quê?

LANA: Nada!

Janice aparece do interior da casa.

JANICE: Não foi correr?

LANA: Estava saindo... (Olhando para a mãe) O que foi?

JANICE: Seu cabelo está desarrumado.  

LANA: O seu também.

JANICE: Não quer pentear um pouco antes de ir?

Janice passa as mãos no rosto. Respira.

JANICE: Não demore, por favor. (Pausa) Vou subir...

Janice entra e sobe as escadas.
Lana caminha em direção aos fundos da casa. O som da bomba de piscina se intensifica. Ouve-se uma porta se abrindo. O diálogo passa a soar abafado, em ambiente interno.

LANA: Está tudo bem?

JANOS: Não sei... Está?

LANA: Você ficou ótimo com essa roupa.

JANOS: É antiga, mas me serviu.

LANA: Era do meu pai. Da época dos jogos.

JANOS: Desculpe, não sabia. (Pausa) Se importa?

LANA: Ao contrário.

Silêncio. Respiração.

JANOS: Engraçado...

LANA: O quê, não costuma vestir algo, assim, mais esportivo?

JANOS: Na verdade, sou professor de educação física.

LANA: Eu competia quando era pequena. Hoje ninguém mais liga pra isso por aqui.
 
JANOS: Pode ser... Mas você está em forma.

LANA: Está brincando.

JANOS: Sabe que não.

LANA: E você... trabalha até nos fins de semana. Aposto que nunca tem tempo para se divertir um pouco.

JANOS: É difícil.

LANA: (Pausa) Gosta de filmes?

JANOS: Gosto. Não é bem o meu forte.

LANA: Porque outro dia acabei assistindo esse que tem uma história trivial, mas que a gente não esquece.

JANOS: Trivial?..

LANA: Uma história simples. É sobre essa garota que treina, treina, mas nunca tem com quem jogar. Então, um dia ela está sozinha na quadra quando aparece o novo instrutor no clube... (Pausa) Já assistiu?

JANOS: Não tenho certeza.

LANA: Que pena... (Pausa) Mas não importa. Acha que posso jogar com você?

JANOS: Jogar o quê?

LANA: Por favor.

JANOS: Como quiser... 

LANA: (Som de porta se fechando. Falando mais lentamente, aproxima-se de Janos e se agacha) Então... deixa dar um jeito nisso aqui... Seu tênis está desamarrado.


Fim.

Outubro de 2009.

*Rafael Vogt Maia Rosa é doutorando em teoria literária e literatura comparada pela USP e autor da peça "Banhistas" (Sesc, 2005).

 

 

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