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Florianópolis, 20 de Setembro de 2009 ESQUECENDO WIMBLEDON Por: Rafael Vogt Maia Rosa* Personagens JANOS: Não tenho certeza de como acabei entrando na sua casa. Vim para ajudar meu pai que é jardineiro aqui na Vila Olímpica. Não conheço bem esse lugar, acabei me perdendo... LANA: Sua camisa está suja de sangue. JANOS: Eu sei. Sofri um acidente. LANA: Se machucou? Som de veículo se aproximando e estacionando. JANOS: Escuta..., é difícil explicar isso agora, mas eu segui com o carro até onde deu. Se me encontrarem aqui, é capaz de quererem... LANA: (Emendando) Vai pela piscina, até os fundos. Pode ficar no vestiário. Lá você também encontra uma roupa para trocar. JANOS: Tem certeza? LANA: Vai logo! Janos se distancia apressadamente. Olavo se aproxima. OLAVO: Achei que estivesse correndo a essa hora. Estava te procurando lá em baixo, perto da represa. LANA: Tive um mau jeito na perna. OLAVO: Sabe de quem é esse carro velho perto da entrada? LANA: Não tenho idéia. OLAVO: Não é melhor avisar os seguranças? Parece que houve um atropelamento perto do estádio. LANA: Olavo, você me desculpe, mas não estou me sentindo bem assim. OLAVO: Assim como? LANA: Com esse moletom velho. Uso isso para dormir. OLAVO: Você fica bem com qualquer roupa. LANA: Bobagem... Silêncio. OLAVO: Sua mãe já acordou? LANA: Minha mãe? Ainda não. OLAVO: Eu sei que é cedo, mas precisava contar que meu pai insistiu com o pessoal da incorporadora e eles disseram que podem, sim, fazer uma oferta para casa de vocês e transformá-la em um centro administrativo ou coisa assim. LANA: É uma ótima notícia. Silêncio. OLAVO: Não ficou feliz? LANA: Sim, muito. Nós agradecemos sinceramente. OLAVO: Sabe que eu sou capaz de fazer qualquer coisa para ajudar. (Pausa) Só não entendo porque é tão... reticente. LANA: Não é isso. Acabei de acordar. (Pausa) Não estou muito bem. Preciso mesmo tomar um banho, me cuidar um pouco. OLAVO: Eu entendo. (Pausa) Então... te vejo à noite, no encontro de boas-vindas na sede nova? LANA: Acho que sim. OLAVO: Posso te buscar, se quiser. LANA: Sabe como é minha mãe. OLAVO: Sei. Não se esqueça dar a notícia pra ela. LANA: Claro. OLAVO: Até mais tarde. LANA: Até. Olavo se distancia. Silêncio. JANICE: (Voz vinda de dentro da casa) Lana, com quem estava falando?! (Som de carro acelerando e saindo.) Aconteceu alguma coisa? LANA: Um cachorro desses que os moradores antigos deixaram foi atropelado lá perto do estádio. JANICE: O quê? LANA: Nada! Janice aparece do interior da casa. JANICE: Não foi correr? LANA: Estava saindo... (Olhando para a mãe) O que foi? JANICE: Seu cabelo está desarrumado. LANA: O seu também. JANICE: Não quer pentear um pouco antes de ir? Janice passa as mãos no rosto. Respira. JANICE: Não demore, por favor. (Pausa) Vou subir... Janice entra e sobe as escadas. LANA: Está tudo bem? JANOS: Não sei... Está? LANA: Você ficou ótimo com essa roupa. JANOS: É antiga, mas me serviu. LANA: Era do meu pai. Da época dos jogos. JANOS: Desculpe, não sabia. (Pausa) Se importa? LANA: Ao contrário. Silêncio. Respiração. JANOS: Engraçado... LANA: O quê, não costuma vestir algo, assim, mais esportivo? JANOS: Na verdade, sou professor de educação física. LANA: Eu competia quando era pequena. Hoje ninguém mais liga pra isso por aqui. LANA: Está brincando. JANOS: Sabe que não. LANA: E você... trabalha até nos fins de semana. Aposto que nunca tem tempo para se divertir um pouco. JANOS: É difícil. LANA: (Pausa) Gosta de filmes? JANOS: Gosto. Não é bem o meu forte. LANA: Porque outro dia acabei assistindo esse que tem uma história trivial, mas que a gente não esquece. JANOS: Trivial?.. LANA: Uma história simples. É sobre essa garota que treina, treina, mas nunca tem com quem jogar. Então, um dia ela está sozinha na quadra quando aparece o novo instrutor no clube... (Pausa) Já assistiu? JANOS: Não tenho certeza. LANA: Que pena... (Pausa) Mas não importa. Acha que posso jogar com você? JANOS: Jogar o quê? LANA: Por favor. JANOS: Como quiser... LANA: (Som de porta se fechando. Falando mais lentamente, aproxima-se de Janos e se agacha) Então... deixa dar um jeito nisso aqui... Seu tênis está desamarrado. Outubro de 2009. *Rafael Vogt Maia Rosa é doutorando em teoria literária e literatura comparada pela USP e autor da peça "Banhistas" (Sesc, 2005).
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