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Florianópolis, 20 de Dezembro de 2008 CABEÇAS CORTADAS DA MESOAMÉRICA Por: Sérgio Medeiros * Ao falar de corpos e cabeças no Popol Vuh, poema maia do século XVI, escrito na Guatemala na língua maia-quiché com o recurso dos caracteres latinos, tomarei como referência a edição brasileira dessa obra, publicada em 2007. Nessa edição, preparada pelo professor Gordon Brotherston e por mim, o poema maia está dividido em quatro cantos. A edição brasileira segue a tradução do texto para o inglês, publicada por Munro Edmonson em 1971. Quando iniciamos a tradução do poema, Edmonson nos autorizou a usar sua edição bilíngüe quiché-inglês como fonte e modelo. No prefácio que escrevemos para a edição brasileira, afirmamos: “Para os aspirantes a tradutores que decidam seguir seus passos, a versão de Edmonson possui várias vantagens evidentes: ela inclui uma transcrição do original quiché; leva em conta a estruturação em versos do original quiché; e compara meticulosamente as soluções que tradutores anteriores deram a passagens opacas e difíceis” ( Brotherston e Medeiros, p. 9). Gostaria de comentar, inicialmente, a estruturação em versos do texto e, a seguir, o uso da voz passiva, que a edição brasileira adotou. Faz-se necessário citar um exemplo. Tomo-o do “Primeiro Canto”: “Quatro criações, U kah tzuquxik, Abrindo um pequeno parêntese, considero o Popol Vuh uma cosmogonia porque narra a origem do mundo e também a criação dos seres humanos, que foram modelados, destruídos e remodelados ao longo do tempo, adquirindo, depois de algumas tentativas frustradas, sua forma atual e definitiva. Uma cosmogonia poderá ser múltipla, feita de grandes e pequenas criações, de gestos enormes e gestos mínimos. A criação bíblica não é o único modelo de cosmogonia de que dispomos. Nesse sentido, seguindo a lição de Michel Serres, autor de um ensaio sobre a gênese ocidental, eu poderia afirmar que o Popol Vuh é um livro que fala de vários começos e que, por isso, é o livro dos começos, ou dos devires numerosos. As coisas do mundo começam, se destroem e depois recomeçam. As coisas também se interrompem, se separam, depois se reconectam, fazendo o mundo avançar. O tempo é múltiplo e os corpos são muito frágeis ou perfeitos demais, é preciso, então, encontrar o meio-termo, daí, segundo entendo, a razão de tantas criações e destruições nesse poema maia. Fechado agora o parêntese e voltando à questão da tessitura lingüística do texto, em sua versão para o inglês e para o português, acredito que tais esclarecimentos, apresentados anteriormente, servirão para mostrar que, a partir de Edmonson, é possível afirmar que a literatura maia-quiché, ou, mais especificamente, o Popol Vuh, é um tipo de texto que faz uso do dístico (grupo de dois versos, ou parelha) e da voz passiva e da passividade. A discussão do corpo humano e da cabeça cortada, que esboçarei a seguir, porá em cena sempre, através dos exemplos que citarei, essa estrutura poética e essa voz verbal, e também mostrará o elemento feminino precedendo o masculino. Mencionei acima as quatro criações. “Identificar e computar essas criações não tem sido fácil”, como reconhece Gordon Brotherston. “Ao discernir nelas as etapas de formas específicas de vida, dentro de uma narrativa evolutiva, Edmonson fala de seus inícios e finais como ‘nascimentos e humilhações’. Tedlock, por outro lado, adere à costumeira preferência espacial e apresenta as quatro criações como ‘formadas e repartidas em quatro partes, assinaladas e medidas... nos quatro ângulos, nos quatro lugares’. Dado o vasto escopo da narrativa, parece provável que os termos-chave maias em questão (tzuq, xukut) incluam as duas possibilidades, neste caso a configuração americana do espaço e o percurso evolutivo do próprio texto descartariam um modelo espacial do qual estivesse ausente o tempo” (Brotherston e Medeiros 2007, p. 17). Considerando especificamente o conteúdo cosmogônico e deixando de lado a história quiché, narrada na última parte do Popol Vuh, podemos agora elencar as seguintes “idades” ou “fases’ do período cosmogônico, correspondendo, a cada idade ou fase, um tipo de criação e de destruição: 1. Gente de barro; 2. Gente de madeira; 3. Os proto-humanos, destacando-se Vuqub Kaqix (Sete papagaio) e família; e 4. Gente do Inframundo ou Xibalba, seguido de um período de transição para a história, período em que são criados, finalmente, os homens de milho, os homens atuais, criação que relaciona o Inframundo à superfície da Terra, mostrando ou revelando que são interdependentes. Em outras palavras, o Inframundo é também fonte da vida e não apenas o reino da morte. Após serem criados, os homens de milho se recordarão das quatro criações e das quatro humilhações, ou seja, segundo o Popol Vuh, as quatro criações ocorreram num período anterior à modelação do seu corpo pelos deuses. Recentemente, num colóquio na USP sobre arte mesoamericana e andina, tive a oportunidade de discutir o Popol Vuh com especialistas no tema e alunos de graduação e pós-graduação. Lembro que enfatizei o fato de o texto maia incluir mito e história, biologia e matemática, filosofia e geometria, poesia e prosaísmo, não se enquadrando num gênero narrativo único. Trata-se de um texto poderosamente multifacetado, espécie de enciclopédia do saber indígena. Não pretendo resumir o enredo de um livro tão complexo, mas destacar um pequeno fragmento do Terceiro Canto, que fala de um sacrifício e de uma cabeça separada do corpo, tema deste breve ensaio: “E então eles foram sacrificados Ta x e puz q’ut, Essa cena se passa no Inframundo, ou Xibalba. A vida e a morte não estão separadas no poema maia. O herói Hun Hun Ah Pu (Um Caçador), futuro pai dos famosos Gêmeos, após ser morto pelos Senhores de Xibalba, torna-se uma “cabeça falante”, oculta entre vários frutos redondos. Um belo dia, uma índia virgem, X Kiq (Moça de Sangue), desobedecendo a uma ordem paterna, aproxima-se sorrateiramente da cabaceira, declarada já árvore-tabu e sob a qual ninguém deveria passar. Eis a cena, uma das mais famosas do Popol Vuh: Kate x beek xa, u tukel Os Gêmeos crescerão fortes e descerão a Xibalba, imbuídos do desejo de enterrar a cabeça falante do pai. Num dos pontos culminantes do Terceiro Canto, e talvez de toda a literatura ameríndia, os heróis épicos se acercam da cabeça do pai, a fim de ajudá-la a morrer, ou a aceitar a própria morte: Xa vi xere ‘u vach x r ah uxik, O pai (cabeça cortada) aceita finalmente a morte, pois compreende que já não possui a linguagem e os nomes, isto é, tudo o que é preciso saber para louvar os deuses. Seus filhos poderão agora cumprir seu próprio destino. Quando a cabeça de Um Caçador é devolvia à cova, ou seja, quando é devidamente inumada, nasce, com suas implicações culturais e espirituais, o funeral maia.. Acredito que esses exemplos maias sirvam para ilustrar a importância da cabeça cortada no imaginário ameríndio, imaginário que, ouso afirmar, continua a influenciar a literatura que se faz hoje na América Latina, seja ela oral ou escrita. BROTHERSTON, Gordon e Sérgio Medeiros (orgs.). (2007). Popol Vuh. São Paulo: Iluminuras Sérgio Medeiros traduziu o Popol Vuh (Iluminuras, São Paulo, 2007), com o auxílio do americanista Gordon Brotherston, trabalho indicado ao prêmio Jabuti de melhor tradução. Leciona literatura na UFSC e publicou três livros de poesia. Co-edita o site de arte e cultura www.centopeia.net
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