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Florianópolis, 10 de Agosto de 2009 DÊIXIS E ESTRANHAMENTO: CAMINHOS DA NOVA POESIA BRASILEIRA Por: Myriam Ávila A despeito de um processo de depuração evidente ocorrido no século XX, a expressão da subjetividade na poesia brasileira mantém uma característica comum a toda a produção anterior: o menosprezo da visão e o uso da imagem quase que apenas como reflexo e metáfora da vida interior. Comparada com a poesia anglofônica, fortemente marcada pela fanopéia – termo de Ezra Pound para a expressão por imagens – a brasileira (arrisco-me a dizer, tentativamente, a lusófona) dá à visão mais o estatuto de percepção extra-sensorial do que de apreensão física de formas, texturas e cores dadas aos olhos. Sem poder aqui explorar os primórdios dessa tradição, é interessante porém lembrar a desconfiança na visão como via de acesso ao conhecimento em Sá de Miranda . Generalizações são inevitavelmente grosseiras, mas, a título de hipótese, parece-me lícito afirmar que, em contraste com o deleite no visível que, por exemplo, a literatura norte-americana demonstra, a poesia brasileira em poucos momentos apresenta a natureza e as coisas como um outro absoluto inapropriável pelo poeta. O modernismo, entretanto, trará, com a emergência do cotidiano e dos ritmos da cidade na poesia, uma nova atenção para cenas e cenários, além do mero transporte do eu. Ainda assim, a cidade, ícone por excelência do moderno, não se mostra sempre como alteridade, seus múltiplos recortes funcionando muitas vezes como uma contrapartida da própria multiplicidade do eu lírico que deles se apropria – notadamente em Mário de Andrade. Contrasta com essa tendência geral uma parte da poesia modernista de primeira hora, em que ressalta um distanciamento irônico do visto: o poeta aponta, e – confiante em um consenso sócio-estético dos leitores não comenta, flashes de um cotidiano convencional e provinciano. Essa retirada da cena do eu, para deixar ver o não-eu indiferente ao poeta, inaugura um novo tratamento do objeto que será, a partir daí, recorrente na nossa poesia, até hoje. O presente se impõe como tema por oposição a um mundo intemporal de sensações, cobrando tributos do mais lírico dos poetas. Se em Oswald de Andrade a rendição ao camera eye é praticamente total, mesmo Mário, useiro em fundir-se com o visto, responde “presente” no seu “Rondó do tempo presente”, colagem de fotogramas urbanos que atropelam o eu que os compõe. Drummond, a maior e mais incontornável referência da poesia dos últimos 50 anos no Brasil, teve seu “sarampão” oswaldiano nos anos 20, do qual “Cidadezinha qualquer” é produto. Deixando-se fortemente marcar pela contemporaneidade e pelo acontecimento do dia, Drummond tem no distanciamento irônico uma das mais insistentes de suas “sete faces”, que convive, no entanto, com o nós engajado e participante (“vamos de mãos dadas”) e com um lirismo banhado de subjetividade. Ao longo de sua obra prevalece o coração do poeta como medida do mundo (“mundo mundo vasto mundo”). É até essa imersão na própria sensibilidade que lhe faculta divisar a máquina do mundo – sintomaticamente, para recusar sua revelação: “baixei os olhos, incurioso” é quase um emblema da recusa da exterioridade. Apesar da prevalência da subjetividade, a poesia de Drummond é inquieta o bastante para nos fornecer toda a paleta que vai desde a recusa da exterioridade até o recuo do eu diante da concretude alienada das coisas. O exemplo extremo é “Jornal de serviço”, com suas enumerações retiradas das “páginas amarelas”. A representação típica da concretude na poesia recai na palavra “pedra” , a coisa por excelência que inspirou também a artista plástica Lygia Clark. Dois dos maiores poemas brasileiros (de fato, incluídos na seleção de Ítalo Moriconi ) dedicam-se a explorar esse referente; o de Drummond construindo a pedra como obstáculo, o de João Cabral como esfinge de eloqüente silêncio. Com ser um ícone da permanência, a pedra permite ao poeta, em dicção moderna, interrogar a essência eterna da poesia. Em Drummond, a ênfase é colocada sobre a impressão deixada nas retinas, e daí na memória, do poeta. É a pedra para si. Em João Cabral, a pedra está fora e dentro: fora para o observador urbano, imerso na modernidade e dentro para o sertanejo que com ela se consubstancia de forma pré-racional. Pedra para si e em si. Essa funcionalização da pedra a retira da categoria de coisa para inseri-la na cultura – memória, em Drummond, educação em Cabral. O caso mais freqüente é o de uma certa interação entre mente – e/ou corpo – e paisagem. Uma seqüência de quatro poemas de Ronald Polito , por exemplo, mostra diferentes graus de envolvimento com o cenário, culminando na autonomia deste em “Antediluviano”: “águas/ um relâmpago aguarda/ o céu/ de ar preciso” . Matéria e paisagem, de Julio Castañon Guimarães, dá ênfase à disciplina do olhar e conseqüente apagamento do eu. Donizete Galvão explica essa tendência : “o corpo necessita dos objetos/ para que estes confirmem/ sua existência em fuga” (“Os homens e as coisas”). Já Duda Machado desmascara a espreita da natureza e das coisas como busca da alteridade, que acaba se revelando mero instinto predatório. “Devoração da paisagem”, começando pela aparentemente inocente contemplação de um “cromo”, reverte-se em rapinagem: “De algum lugar, Já é presa, O deleite no visual, da forma como aparece em tanto da poesia norte-americana, encontra poucos adeptos em território brasileiro, no qual um poema como o “javali”, de Hermínio Bello de Carvalho (Embornal) é um exemplo raro. Mais comumente, a influência daquela poesia em nossa produção vem matizada pela lição modernista, antes fotográfica que descritiva. O “poder silencioso” do objeto, ainda ao modo cabralino e drummondiano de encontro com a pedra, é sentido no processo de sua transformação, propõe Horácio Costa: “Eis-me aqui procurando em tua re-forma/ Teu trabalho anterior, tua sombra/ Que se alongou em minha memória tua” (“Transformação do objeto”). Nem em Paulo Henriques Britto, tradutor da visualíssima Elizabeth Bishop, a primazia da visão é um aspecto relevante, mesmo porque, diz ele, “nenhum descobridor na história/ (e algum tentou?) jamais se desprendeu/ do cais úmido e ínfimo do eu” (“Sete poemas simétricos”). [503cm] [539cm] [106cm] ** – na floresta de palmas baixas erguem-se as pernas gigantes (...) ******** – as palmas estraçalhadas se dirigem para o vidro (da janela) sem tocá-lo: pausas no ar, os braços longos e duros, deformados, são pacíficos e verdes; ou, secos e pálidos, o braço e a palma caem como esqueleto de bruços ***************************************** (...) (...) Nos poetas em que a visão inclui o trazer a si da imagem, que penetra a retina e sofre uma re-ordenação pelo sujeito, antes de se fixar como escrita, não se abdicou ainda da instância metafísica. Mesmo nesses, porém, o presente não deixa de aparecer sob a forma da multiplicidade e da alteridade que escapam à apropriação. Já no The waste land de Eliot, o detalhe vulgar, a corruptela e a sordidez invadem o poema (que por outro lado é repleto de referências elevadas) como um lastro que o impede de alçar vôo. Uma terceira posição, além da luta pela existência, mesmo que “em fuga”, do eu, e distante também do alheamento nonsense de Medeiros, pode ser encontrada nos “sonetos salvajes” de Douglas Diegues, que escreve em portunhol, guarani e outras línguas da fronteira Brasil/Paraguai. Tomando a forma soneto – tão revisitada hoje – e retirando-lhe exatamente o rigor formal, Douglas a transforma em uma espécie de saco de lixo do cotidiano. Escolhe o soneto shakespeareano, que termina em dístico de caráter – em Diegues – francamente sentencial, lembrando de novo o “jardineiro louco” de Carroll com suas exclamações patéticas ao fim de cada estrofe. Outsider radical na paisagem urbana, o eu que se enuncia nos poemas de Diegues também não se recolhe a um mundo próprio que filtra as projeções do exterior. É interessado entre os alheios, ouvinte atento entre surdos, curioso diante do déja vu. Exibe uma auscultação do mundo que não se restringe à visão mas que reduz ao mínimo a reelaboração desse pela subjetividade, traduzindo-se em seqüências enumerativas: belleza pública bersus belleza íntima belleza antigua bersus belleza nova belleza salbaje bersus belleza civilizada este mundo está ficando cada vez mais horrible ellos preparam el defunto y comezan a encher u caixón de flores y também, parece, o presunto, sentir-se legal ellos preparam u presunto No entanto, nem todo o corpo de sonetos “salvajes” exibe esse grau de desencantamento. Há momentos de nostalgia e lirismo, que só a parataxe ainda radical mantém sob controle. Por outro lado, a presença constante do eu e do você nesses poemas não garante a sobrevivência da subjetividade, já que eu e você, como personagens de Beckett, só se dão através da ação imediata e escancarada que a rapidez da cidade exige. O panfletário assume aí uma feição interessantemente kitsch: acaba por ser o correlato da retórica publicitária que assola os ouvidos e os olhos do passante urbano (“invente, ouse, inove, chute a gol, no perca mais este dia/ faça você mesmo sua própria antologia”). No todo, os sonetos dieguianos têm um ar de inusitado pela naturalidade da colagem que apresentam, a concepção do poeta como ser basicamente gregário que busca o convívio impossível com sua raça (mas agora sem vida interior que compense seu isolamento) e o estranhamento que instalam nas coisas mais usuais. O mesmo distanciamento beckettiano aparece também em uma parte da produção de Sérgio Medeiros, que consiste em formas pré-, pós- ou pseudodramáticas auto-denominadas “ópera, balé, réquiem, pantomima”, nas quais os personagens estão, mais do que de autor, em procura de um roteiro. Juntos, Medeiros e Diegues dão considerável impulso a uma tendência minoritária na poesia brasileira. Se dividirmos os procedimentos estruturantes da poesia moderna e contemporânea brasileira em quatro tipos: 1) reflexão metalingüística sobre a palavra e o discurso, 2) intertextualidade preponderantemente voltada para referências literárias (inclua-se aqui a paródia), 3) exploração sutil da subjetividade e seus meandros, 4) recorrência à e emulação da imagem (fotográfica, cinematográfica, pictográfica), certamente o último representará o veio menos explorado. Este fato por si só justifica a atenção que demos aqui a esse traço recessivo e a dois novos poetas que o redesenham cada um à sua maneira, de forma absolutamente pessoal. (Myriam Ávila é pesquisadora do CNPq e professora de literatura na UFMG) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.
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